segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

snyder



Entrei no Cangaço's Bar
Em Feira de Santana, BA.
Virei seis doses de abaíra
       e quatro cascos de brahma.
Prendi meus dedos na barba.
Decidi largar a bebida.

Dois sergipanos faziam graça
        na mesa ao lado,
Uma moça (ou onça) disse dos seus
sotaques: de onde
        vocês são?
        Paraíba? Maranhão?
A dupla brega tocava
"Eu não sou cachorro não"
E na canção seguinte
   um casal (ou cabras) começou a dançar.

Se abraçavam feito velhos
   com saudades da jovem
guarda. Lembrei de quando
quase fui a Petrolina, PE,
   e dos bares de Lençóis, Chapada.
Aquela alegria jeitosa e uma dureza -
   Nordeste - aquela estupidez.
Por pouco não te amei outra vez.

Parti - nos ombros da BR: estradas
    esburacadas debaixo das velhas e duras
  estrelas: Brasil o dia inteiro.
À beira do Jacuípe
    voltei a mim mesmo,
ao trabalho verdadeiro, para
    "O que deve ser feito".

terça-feira, 21 de março de 2017

michael mcclure



Sobre ler Paterson em voz alta

SIM,
ISTO É
POESIA
PURA
-tipo Blake vagando pelo campo
ou cobras ao lado de lagos
onde erguemos pro alto os escudos
com os nossos nomes.
Homem, cidade, queda d´água,
é tudo a mesma coisa.
O livro de Abril é livre
da vergonha
e dança
brilha
na escuridão
de um Passado

que não vai muito longe.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

?


61c

se o movimento dos astros não resvalasse em teu corpo
como nas canções intermináveis de gil e jorge que vão noite adentro
para se firmarem nas peles, presságios e sonhos de tantos
como nas idas e vindas das ondas, correntes e vidas marinhas que vêm e que vão
para se firmarem nas peles, presságios e sonhos de tantos
como nas caudas e asas de aves e dragões que habitaram e a abateram humanos e santos
para se firmarem nas peles, presságios e sonhos de tantos
eu não precisava ficar (e eu fico) de olho na vênus imensa
que pisca através da janela do teu apartamento
eu não precisava ficar (e eu fico) mirando nuvens, raios, relâmpagos,
aviões, ovnis, pássaros que riscam o ar junto do teu apartamento
eu não precisava ficar (e eu fico) atento aos besouros e ao tempo
que tenta empurrar o corpo para frente e a mente nem tanto
(não aqui, não no teu apartamento)
se o movimento dos astros não resvalasse em teu corpo
eu não anotava
na ponta
dos meus dedos
as faíscas
decorrentes
deste encontro-

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Enrique Verástegui



ARTAUD NUM VERÃO ESCALDANTE / FEVEREIRO
                                                           CIDADE UNIVERSITÁRIA/ USP


              8 e meia em SP
     Agora só me resta tempo para gritar
              pelas feiras
Para cinco horas de sono.
              Para vagar? numa lata de sardinhas
     com minha eterna magreza
              feito um besouro afugentado pelo riso
e a alegria desta ilusão é o real reluzente
     recém-cunhado pelo Banco Central do Brasil.
              8 e meia em SP
     8:30 / 8 e meia / 8:30 / 8 e meia / 8:30
              Vou estourar.

sábado, 29 de outubro de 2016

Amiri Baraka



1

Uma paisagem japonesa em neon acende
um filme persistente
da memória. Suas folhas e seus montes
se movem em perspectivas absurdas. Fazendeiros
e Americanos,
                       dizem eles que é tudo azul. Algum fenômeno natural,
alguma imagem possível
do que devemos chamar História. Uma selva
de sentidos. Na mente deles, uma árvore
partida, sangue quente num bulbo romântico. nossa beleza
súbita e equivocada. Doçura inepta. (Pois
aquelas moças magras meditam sob nossos incensos nas trevas.
Aqueles tagarelas que não vão calar a boca
nem quando a noite cair. E ficar na soleira
deixando entrar o ar gelado.
                                        Toda uma história das razões,
tão segura quanto a economia
para estes anões incansáveis
fazendo milagres diante dos cegos. O círculo úmido
das suas calças
a ameaça
de nossa educação. Não é Dante,
nem Yeats. Mas o peregrino
bruto e bêbado, que conheci tão bem
na juventude. E tornei-me pedra
esperando a mudança.

2

O calendário é memória. As raízes mortas
do cérebro do poeta. Pele amarela, pele
preta, ou a calma informe do acordo. Eles não vão vir
para te ver, ou te entender. Eles vão te chamar de "assassino",
fazer disso um novo refrão para os jovens. As montanhas
em seu país, os céus chapados do meu. (A não ser
nas praias, os pobres odeiam as suas sombras,
e exigem da agonia uma dança.

Toda a noite as folhas azuis zumbem
em Kyoto. Já as janelas da 5th street, estas
gritam.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Cecilia Vicuña



Uma palavra é um fio e o fio é linguagem

Corpo não-linear.

Uma linha associando-se a outras linhas.


/.../

A palavra é silêncio e som.
O fio, cheio e vazio.

A tecedora vê sua fibra como a poeta sua palavra.

O fio sente a mão, como a palavra a língua.


/.../




/.../

A palavra é o fio condutor, ou o fio conduz a palavra?

Ambos levam ao centro da memória, a uma forma de unir e conectar.

Uma palavra está prenhe de outras palavras e um fio contém outros fios em seu interior.

Metáforas em tensão, a palavra e o fio levam para além do fiar e do falar, ao que nos une, a fibra imortal.

Falar é tecer e o fio tece o mundo.





Nos Andes, a própria língua, quechua é uma corda de palha retorcida, duas pessoas fazendo amor, várias fibras unidas.

A tecedora está lendo e escrevendo ao mesmo tempo, um texto que a comunidade sabe ler.

Um texto antigo é um alfabeto de nós, cores e direções que já não podemos ler.

Hoje os tecidos não apenas "representam", mas são eles mesmos um dos seres da cosmogonia andina. (E. Zorn)

Ponchos, llijllas, aksus, winchas, chuspas e chumpins são seres que sentem
         e cada ser que sente caminha envolto em signos.


/.../

O tecido está "no estado de ser tecido": awaska.

E uma mesma palavra, acnanacuna, designa os vestidos, a linguagem e os instrumentos para sacrificar (significar, diria eu).

O encontro do dedo e do fio é o diálogo e a torção.


/.../




/.../

O fio está morto quando está solto, mas se anima no tear:
          a tensão lhe dá um coração.

Soncco é coração e entranhas, estômago e consciência, memória, juízo e razão, o coração da madeira, o tecido central de um caule.

A palavra e o fio são o coração da comunidade.

O iniciado se recosta sobre um tecido de wik'uña para sonhar.




quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Roberto Bolaño



Imitação de Bolaño

A noite infinitamente silenciosa de São Paulo
abre a boca e um rapaz de 30 anos se inclina outra vez
sobre suas ruas, observando, sem piscar, as correntes e
os assassinatos, os jornais velhos e
os acidentes de carro - que, tipo uma plateia,
cercam o salão de valsa, suas fronteiras ambíguas, onde ele,
vestido com calças jeans, botas e camiseta branca,
outra vez saúda uma garota de olhos brilhantes.

E os copos tristes passam de mão em mão pela mesa cheia
de conversas nostálgicas de desempregados:
noites passadas numa Casa do Norte ou num chinês, observando
as velas transparentes que os anjos apagavam (através
desse murmúrio ele sente o contorno de vozes muito remotas)
quando as palavras indicadas para saudar
eram escolhidas entre os diversos letreiros luminosos.
Certa elegância nos gestos dos sonâmbulos,
ou em sua clara, silenciosa e rápida forma de amar
que o rapaz quer estudar antes de morrer.


defeito de "Imitación de Verlaine", de Roberto Bolaño.

domingo, 11 de setembro de 2016

Hilda Morley



Romãs

Manchei meu queixo com o suco vermelho
de romãs
Comi romãs durante o outono
sabendo que as suas sementes eram símbolos
do retorno 
          Lado a lado com a morte toda noite
Toda noite a morte vivendo ao nosso lado
         Já faz tanto tempo
         que respiramos morte.
Quantos meses mesmo?
Caminhei bastante junto ao rio
entardeceres       rosto molhado       mãos nos bolsos
olhando o pôr-do-sol e o contorno das luzes
dos barcos indo lentos
lúcidos na névoa
                                além de toda esta miséria
inflexíveis.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

John Cage





Para William McN., que estudou com Ezra Pound

               em 10 Minutos
       volte aqui:voCê terá
              me ensiNado chinês
                       (sAtie).
             devolvo Um favor?
                      orGanizo
 lições ainda melHores
                        (Ting!)
                         Ou você prefere
             só o silêNcio?

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Diane di Prima



A MULHER DE LOT NÃO TEM

nome.        Se ela olhou para trás
             ou não:

não me interessa. Importa é saber
quem ela foi--como
ela era?       (antes dela
virar--se é que ela virou--aquela
estátua       de sal)     como

ele a saudava     quando ela
voltava dos campos?

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Carlos Oquendo de Amat




poema do manicômio


Tive medo
e voltei da loucura

            Tive medo de ser

                                         uma roda
       
                                                           uma cor
  
                                                                             um passo


     PORQUE MEUS OLHOS ERAM MENINOS

                    E meu coração
                        mais um
                          botão
                            da
             minha camisa de força

Mas hoje que meus olhos vestem calças compridas
vejo a rua que está mendiga de passos

sábado, 27 de agosto de 2016

Diane di Prima




Sinais alquímicos

por exemplo, os clarões
da aurora boreal,          uma baleia encalhada
o sonho que você não teve      ou
um deslize ao dizer

isto são sinais
(todos os outros estão contando histórias)

sinais não podem ser narrados
embora você possa aprender
a lê-los--

se você tiver a sorte de
sacar um deles passando

mantenha-o em segredo.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Corpus Hermeticum



XVII


"... se você pensar bem, oh rei, o incorpóreo também existe em meio ao corpóreo."

"Como assim?", perguntou o rei.

"Corpos que aparentam estar em espelhos parecem incorpóreos para você, ou não?"

"Sim, Tat, parecem; o seu entendimento é divino," disse o rei.

"Mas há também outros incorpóreos: não lhe parece, por exemplo, que há formas que aparecem em corpos ainda que sejam incorpóreas, e não apenas nos corpos animados, mas também naqueles sem ânimo?"

"Você o disse muito bem, Tat."

"Além disso, há reflexos do incorpóreo no corpóreo a do corpóreo no incorpóreo - do cosmos sensível ao inteligível, pois, e do inteligível ao sensível. Portanto, oh rei, adore as estátuas, pois também elas possuem formas do cosmos inteligível."

Levantando-se, o rei disse então: "É hora de receber os meus convidados, oh profeta; amanhã teologizaremos ainda além"


traduzido a partir da edição inglesa do Corpus Hermeticum, editada por Brian P. Copenhaver.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

McClure




A GA
TI
NHA
MA
LHA
DA
vira
o pescoço
grosso
para
ver
o grilo

*

DOIS GATOS
no sereno
vendo árvores e casas
como estas
no fundo da noite

*

CARACOL NO RAMO
GATO NA ÁRVORE
-tudo
como
sempre
foi

domingo, 14 de agosto de 2016

Bolaño




Outro amanhecer no camping Estrella de Mar

Apenas o rádio atravessa o silêncio
(Magníficas nuvens                Ar magnífico)
Vozes distantes que compartilhei
contigo       Canções
que dançamos faz tempo
quando ninguém tinha nem
vinte anos
e éramos menos pobres e menos serenos
do que hoje
(Nuvens magníficas               Magnífico ar)
Doce estilo novo da primavera
10 graus acima de zero
às 6 da manhã.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

+ di prima



há aqueles que podem te dizer
como fazer coquetéis molotov, lança-chamas,
bombas o que quer que
você precise
encontre-os e aprenda, esclareça
sua meta, escolha sua munição
com isto em mente

não é uma boa ideia carregar revolver
ou faca
a não ser que você saiba muito bem como usá-los
todas as espadas têm dois gumes, podem ser usadas contra você
por quem quer que possa tomá-las de você

é
possível até mesmo na costa leste
encontrar um lugar isolado para treinar a mira
o sucesso
vai depender sobretudo do seu estado de espírito:
medite, reze, faça amor, esteja preparado
para morrer a qualquer momento

mas não esquente: não são
as armas que vão vencer, elas são
uma parte incidental desta ação
na qual é bom que sejamos bons,
o que vai vencer
é mantra, o apoio que damos uns aos outros,
a energia que despertamos
(o fato de que nós tocamos
partilhamos alimento)
na natureza buda
de todos, amigos e inimigos, feito milhões de minhocas
cavando sob esta estrutura
até que ela desabe.

'carta revolucionária #7"

domingo, 31 de julho de 2016

Baraka




Prefácio ao "Twenty Volume Suicide Note"

Acabei me acostumando ao modo como
O chão se abre e me envolve
Sempre que dou uma volta com o cão.
Ou com o som do vento contra a minha gola
quando corro atrás do ônibus.

As coisas chegaram a este ponto.

E agora, toda noite eu conto as estrelas
E toda noite chego ao mesmo número.
E quando elas não vêm para que eu as conte,
Me resta contar os buracos que elas deixam.

Ninguém canta mais nada.

Então na noite passada eu fui de fininho
Até o quarto da minha filha e ouvi
A sua conversa, e quando abri
A porta, ninguém estava lá...
Apenas ela, de joelhos, espiando

Suas próprias mãos fechadas.


Tradução de um poema de Amiri Baraka publicada há alguns anos na revista Pitomba.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Elvira Hernández



Cidade interior

Não posso ser outra senão a pensativa da Necrópole
São Paulo, a chorosa do Parque do Ipiranga,
a desmemoriada   
                               ---                 nem outra
senão a que recolhe os papéis com sangue
                                              ---                     nem
aquela que não quer o balaço solipsista
                                porque nada desaparecerá

Vez ou outra sou a mesma, a Una, a do espelho
que caminha com uma aranha entre os botões
                                                                      a sombra
que se agarrou ao homem que dobrou a esquina
               e faz arder seu pescoço guilhotinado


defeito de um poema de Elvira Hernández.